Banco da praça, 1938

A madrugada era fria e solitária como qualquer outra. O correto talvez não fosse dizer solitária, mas o velho ditado “antes só do que mal acompanhado" sempre foi bem vindo.

Apressou-se a tapar os ouvidos e fechar os olhos, mas logo percebeu uma presença diferente, uma vez que o tato não pode ser camuflado. Era uma figura franzina dos olhos brilhantes. Numa mão um buquê, na outra um bilhete. Não parecia um bêbado, nem qualquer outra companhia a que estava habituado. Observava o céu e a Lua com uma expressão muito triste e sonhadora (e como sabemos também era observado).

Uma borboleta reluzente passou por seus olhos.

O poeta (o mesmo ser franzino) ajoelhou-se à sua frente e escreveu. Naquele momento, no velho e solitário banco da praça, “Soneto à Lua” ficou registrado. Era 1938, Rio de Janeiro.

Houve uma festa lunática no mundo lunático. A borboleta lunática nunca mais se esqueceu da doce homenagem. Dizem que era Vinícius de Moraes.