O Colégio


Não se ouvia o burburinho comum aos colégios, e ninguém falava mais alto do que o necessário para que somente quem realmente interessava ouvir. A cidade não fazia barulho algum, parecendo dormir. O Colégio era grande, desproporcional à cidade diminuta. Sem dúvida a pirâmide etária da cidade estava bastante desequilibrada, já que a imensa maioria de seus moradores eram jovens vindos de todos os lugares do mundo a fim de aprimorar-se nos estudos.

Aproveitando o relativo silêncio, no meio do pátio apinhado de estudantes uma garota ruiva de cabelos cacheados tentava resgatar seus fones de ouvido perdidos em algum lugar dentro da sua própria mochila enorme. Tentando não esbarrar em ninguém, andava escutando qualquer música melancólica o suficiente para combinar com seu estado de espírito.

Aliel nunca foi uma pessoa depressiva, mas sempre gostou de ter os seus momentos de melancolia devidamente respeitados, sempre acompanhados de uma bela e triste trilha sonora. Por algum motivo, desenvolveu um estranho apreço pelas músicas mais tristes e chorosas, com belas vozes e poucos instrumentos. Esses e alguns outros hábitos a faziam diferente das pessoas da sua idade.

Aliel era nova no Colégio e morava na cidade há pouco tempo. Não tinha muitos amigos para perder com a mudança, a sua casa aqui era mais confortável e o Colégio melhor que sua antiga escola. Além disso, sua rotina de anti-social a fazia ignorar a cidade pequena, sem muitos atrativos. Na verdade até mesmo preferia um lugar relativamente deserto, dadas as circunstâncias da sua vida. Foi mesmo por ter ouvido que esse era o lugar menos movimentado desse planetinha chamado Terra que decidiu instalar sua base lá. Assim não teria tanto trabalho com seu estilo de vida.

Cantarolando baixinho uma música, Aliel finalmente encontrou a sala da sua primeira aula, no fim de um corredor interminável. Ninguém reparou quando entrou. Era o início do ano letivo e os alunos já esperavam rostos novos, não que realmente se importassem com isso ou fizesse diferença nesse caso.

Quando uma curiosa figura que atendia pelo nome de Woj entrou na sala, todos ficaram no mais absoluto silêncio. Pareciam alheios uns aos outros focados apenas nos garranchos que agora preenchiam o quadro. Depois de perceber que aquele era algo como um professor amalucado, Aliel começou a prestar melhor atenção no que dizia.

Woj tentava explicar a existência de muitas outras dimensões além das que conseguimos perceber. Para isso, dizia que uma formiga andando sobre uma superfície muito grande, jamais cogitaria a existência de alguma outra dimensão além daquelas que consegue sentir e distinguir. Considerando o tamanho do espaço, citado na introdução do Guia do Mochileiro das Galáxias como desmesuradamente inconcebivelmente estonteantemente grande, todos os alunos presentes poderiam se imaginar como uma simples formiga (mesmo que se considerando as proporções deveria ser algo bem menor). Os jovenzinhos vidrados na figura a sua frente por um momento realmente se sentiram como formiguinhas inconscientes do que as cercam.

Mas num canto da sala, uma garota de cabelos ruivos e cacheados se perguntava quando esses terráqueos iriam descobrir que a quantidade de dimensões existentes depende de quem as observa, e que cada pessoa vê quantas quiser? Pelo menos era assim no seu mundo perfeito, de onde foi “expulsa” por talvez não ser perfeita o suficiente.
_

Depois de andar três vezes pelas bicicletas enfileiradas (bicicletário, descobriu depois), que agora pareciam de um número infinito, Aliel encontrou a sua, notando que o enorme cesto laranja na frente não lhe parecia mais tão chamativo assim. Cinco minutos depois, guardava sua bicicleta na garagem de sua casa-cogumelo.

Aliel nunca teve muito que fazer. Aprendiz brilhante, não costumava estudar em casa. Ocupava todo seu tempo lendo, desenhando, escrevendo, pintando ou tocando. Colecionava os mais diversos objetos, desde postais e moedas antigas a figurinhas de chiclete e tampinhas de garrafas coloridas. Certa vez chegou a colecionar poemas que seu vizinho descartava, colocadas carinhosamente dobradas na lixeira. Essa era agora sua primeira coleção forçadamente completa, já que não voltaria a sua antiga cidade tão cedo.

Sem pais biológicos e tão pouco adotivos, Aliel veio do Mundo Lunático direto para o Mundo Terráqueo. Nunca foi exatamente criança, mas também nunca seria adulta. Sua pouca experiência nesse novo mundo a fazia ser pouco cuidadosa com costumes terráqueos. Freqüentemente se esquecia de alguma regra básica imposta por essa sociedade estranha, como pagar a conta da lanchonete. Se fosse visível, seria facilmente conhecida como uma pessoa relapsa e às vezes sem modos. Aliel era invisível e não era do seu feitio aproveitar de sua situação para desrespeitar leis. Nem mesmo as terráqueas sem sentido.

Depois de observar com curiosidade a sua casa vizinha, Aliel não demorou a se sentir exausta e dormir. Também não era seu costume acordar cedo. No Mundo Lunático ela podia dormir metade do dia sem que ninguém e nada a perturbassem. Ela só conheceu o temível objeto chamado despertador no Mundo Terráqueo.

--

Ao som de Nunca mais - Engenheiros do Hawaii