Sério

Tinha medo do Sério. Nem sempre fora assim, já que havia sido um Sério numa criança, mas agora era uma criança num quase Sério. Não queria tornar-se um Sério, mas sabia que era inevitável pelo menos em algumas circunstâncias da vida. Por esse e outros motivos ganhara fama de imatura, irresponsável e até mesmo exagerada. Amante da vida, das pessoas e das cores, ficava horas a observar o movimento das ruas, a natureza, ou o céu. Ócio? Talvez, mas ócio produtivo.

Não gostava de chamar a atenção para si, mas sempre o fazia, talvez pela aura de purpurina ao seu redor, talvez pela sua vida cor de arco-íris. Não entendia o mundo. Queria transformá-lo, quem sabe num carrossel de luzes brilhantes, capaz de alegrar até mesmo os pobres e maltratados corações dos Capitães da Areia, extinguindo-se a obrigatoriedade imposta pela vida de um dia ser um Sério. Gostava dos clássicos. Odiava Best-Sellers.

No seu mundo particular não existia politicamente correto, nem “profissional”; não era necessário. Se um dia pudesse transferi-lo para o mundo dominado pelos Sérios....

E mais uma vez sonhava observando as estrelas do céu e um par de olhos. Um par de olhos? Numa outra época quase concordara em estar ficando louca, mas ultimamente esse era só um pensamento remoto. Não sentia medo, porque sem dúvida não era um Sério. Nenhum seria capaz de observá-la colorir seu mundo com cores alaranjadas sem fazer nenhuma crítica. Não construtiva.

♪ Emmanuel Moiré - Etre A La Hauteur