Andie

Acho que reli aquele bilhete umas vinte vezes. “Andie”. Meu nome é Andie. “Recomece”. Recomece? “Snoop”. Eu tenho um cachorro. Ops! Essa é a minha casa! Eu sou rica? Fiquei tanto tempo pensando que me esqueci do mais importante: a gaveta ao meu lado no chão. Só tinha papéis.. Muitos papéis. Tirei todos e observei um a um. Pareciam ser documentos. Eram tantos que nem sei quanto tempo perdi com eles, aliás, a minha noção de tempo ali era quase nula e parecia noite. Depois de ler os documentos descobri algumas coisas sobre a completa desconhecida ali: Meu nome era Andie. Andie Viscky. Eu tinha apenas 18 anos. Parecia ser muito rica. Apesar no nome não confirmar muito, achava que era russa (Será que eu estava na Rússia?). Tinha também o número de uma conta de um determinado banco. E a senha.

Estava escuro. Cheirava mofo e.... Álcool? Sim, existia um forte cheiro inconfundível de álcool. Alguma coisa brilhava contra uma estreita faixa de luz que entrava por uma pequena parte não coberta de uma janela. Esfreguei meus olhos e olhei novamente. Eram cacos, muitos cacos de vidro. Olhei atentamente: eram garrafas quebradas de onde provavelmente exalava aquele forte cheiro de álcool. O que eu estava fazendo ali? Aquilo tudo parecia que não combinava comigo.. Apesar de nem saber quem eu era. Eu não conseguia me lembrar de nenhum dia da minha existência. Agora sentia minha cabeça doendo, e a dor era forte. Com um pouco de esforço levantei-me. Estava tonta. Com a ajuda de alguns objetos não identificados pela escuridão, cheguei até a janela de onde entrava aquela luz. Estava coberta com um tecido muito grosso e não parecia uma cortina. Puxei um pouco e o tecido preto foi facilmente se desprendendo e caindo. Definitivamente não era uma cortina.

Meus olhos quase cegaram ao ver a luz do dia. Olhei para o interior onde minutos atrás estava deitada e fiquei surpresa: tudo era extremamente bagunçado, mas mesmo assim percebia-se facilmente o luxo do local. Era uma sala de estar, muito ampla, com paredes não muito claras tendendo ao vermelho. Uma delas era feita de vidro, de onde pude ver um enorme jardim.

Onde eu estava?

Durante não sei quanto tempo fiquei em estado de inércia fitando o vazio, e foi aí que senti uma enorme vontade de usar o banheiro. Droga! Eu não sabia direito nem o que existia a um palmo na minha frente, quem dirá um banheiro! Comecei a me mover e percebi uma porta num corredor que vinha de algum lugar desconhecido e dava acesso à sala de estar. Felizmente parecia ser um banheiro. Abri a porta e fiquei paralisada. Havia um espelho logo a minha frente, e essa foi a primeira vez que me lembro de ter visto aquele rosto, ou melhor, o meu rosto! Até que eu não era feia... Não, eu era bonita, muito bonita na verdade (talvez achasse isso por ser o primeiro rosto que vi desde a hora que acordei). Mas... O que eu estava usando? Apesar de totalmente amarrotado, um pouco rasgado e sujo, aquele era sem dúvida um maravilhoso vestido de noiva. Eu era casada? Por um instante não me senti muito sozinha. Mas onde estava o noivo? Não, provavelmente não era casada, talvez fosse me casar...

Eu estava completamente atordoada e não sabia o que pensar. Resolvi tentar esquecer a roupa que estava usando e continuar a andar pela casa. No fim do corredor havia uma maravilhosa cozinha gourmet. Enquanto passeava os olhos por aquele lugar percebi um bilhete pregado na geladeira.

“Andie,

Talvez você esteja um pouco perdida agora, mas eu já tinha previsto isso, e foi por isso que deixei esse bilhete. Tudo o que você precisa saber está aí nessa gaveta ao lado. Não se esqueça do Snoop. Ele deve estar faminto!

Sem mais,

M.C.

Obs.: Recomece!”

Eu estava matriculada no primeiro ano da faculdade de medicina, mas o ano letivo ainda não havia começado. Parecia que eu não tinha família... Não existia nenhuma referência a isso. Fiquei sabendo de mais algumas coisas: Todos os dias às 9h a empregada chegava, e ela tinha a chave da casa. O nome dela era Megan, mas eu a chamava de Meg; O jardineiro vinha todas as quintas e eu não precisava falar com ele; tinha também alguém que cuidava da piscina, o porteiro, o eletricista, o jornaleiro, e.. o mordomo, Roberto, o Beto.

Dentre as inúmeras recomendações deixadas num papel escrito a mão, existia também a maneira como eu devia me comportar com cada uma dessas pessoas, incluindo o Snoop. Ah é, do Snoop era eu mesma que cuidava. Estranhei... Quando já estava cambaleando de sono e tonta com a dor de cabeça por hora esquecida, resolvi encontrar um lugar pra descansar. Após um banho, desanimei só de pensar que demoraria muito para encontrar um quarto, mas havia um mapa da casa atrás da porta do banheiro e segui como uma múmia para o mais próximo. Quando entrei não vi mais nada. Só uma cama. Apaguei.

Marisa Monte - Ilusión (part. Julieta Venegas)

Obs.: Eu sinceramente não faço a mínima idéia do que estava pensando quando escrevi isso. Achei no meio de uma papelada nas minhas arrumações de férias.