Chuva [2]


Com o guarda-chuva quebrado e os pés molhados escorregando no chinelo igualmente muito molhado, a garota atrasada tentava andar depressa até o ponto do ônibus que a levaria para casa. 

O chinelo e a descida não combinavam. O guarda-chuva quebrado e a chuva não combinavam. A pressa e a porta do carro sendo aberta não combinavam. O sorriso ao agradecer a porta ligeiramente fechada e o atraso não combinavam. A espera e o atraso do ônibus não combinavam. O guarda-chuva molhado e o ônibus não combinavam. O ponto e o ônibus lotado não combinavam. O medo e o homem não combinavam. O portão e a chave não combinavam. A escuridão e a luz não combinavam. A porta e a chave não combinavam. A água quente e o corpo gelado não combinavam. O sono e o pensamento também não combinavam. 

Mas a garota combinou com a chuva. E quando o sono combinou com o pensamento, descombinou. 

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À incrível arte de chover e escrever