Já fazia algum tempo que eu havia conhecido Aliel, e não me lembro de ter dores de cabeça antes disso. Ela não sabia se comportar como uma pessoa normal e sempre dizia não pertencer a esse mundo. Às vezes eu me via tentado a acreditar nisso, mas logo o bom-senso voltava e eu percebia que era loucura. Certa vez, fiquei com a consciência pesada depois de deixá-la ir sozinha a uma lanchonete perto da escola. Para ela qualquer ato simples como esse poderia ser uma fonte interminável de problemas, e é exatamente por isso que naquele dia peguei meu carro e fui até a lanchonete.
Logo na entrada notei que o lugar parecia mais movimentado que o normal. Perto de uma das portas de saída havia uma aglomeração de pessoas, e o Srº Hnoj gritava algo como “Ladra! Querendo sair de fininho sem pagar? Leve-a presa!”. Outra pessoa que parecia ser um segurança tentava contê-lo, ato totalmente inútil. Não contendo a curiosidade, e quase me esquecendo do motivo para estar lá, tentei ver quem era a azarada e muda que estava quase sendo presa pelo exagerado Srº Hnoj. Não acreditei quando vi a pequena figura tentando se esconder atrás do segurança.
“Ekim!”
Ela estava apavorada, e com muito esforço consegui levá-la para fora. Mais uma vez, eu, Ekim, estava salvando a pele da autodenominada lunática Aliel. Logo eu, o nerd "tonto" da escola.
“Você está bem?”
“Sim” Ela parecia sincera. É, esqueci de falar que Aliel era bipolar. Pelo menos eu achava.
“Quer carona? Você pode tropeçar no caminho, bater a cabeça e morrer.”
“Ekim!”
“Está bem, mas vê se não me dá mais trabalho.”
“Eu não vou mais te contar minhas histórias...”
“Já disse que não são histórias, mas Estórias!”
“Se você não acredita o problema é seu.” De repente ela ficou muito séria.
“O que eu fiz de errado?”
“Hum?”
“Por que todo mundo estava bravo comigo?”
“Acho que você se esqueceu de pagar, não é? Está com amnésia também? É só o que me faltava...”
“Mas eu ia pagar...”
“É que você tem que pagar na hora...”
Eu não acreditava no que estava ouvindo e dizendo. Até isso! De que mundo aquela garota veio? E então Aliel me olhou com um brilho inexplicável nos olhos, como se acabasse de fazer uma grande descoberta.
“Obrigada.”
“Por nada. Disponha.”
A garota agora exibia um sorriso de orelha a orelha e parecia saltitar internamente. Entrou no seu carro sem dizer mais nenhuma palavra e foi embora. Bipolar. E eu lá, parado, na frente da lanchonete, com fome e atrasado. Bipolar! Ela era bipolar!