O Acre existe - Parte II


O lugar era estranhamente quieto e calmo, o que parecia contradizer Tanunca Nara, pois dissera haver ali um reino, muito grande. Depois de caminhar por um bom tempo, Aliel avistou algo que chamou sua atenção: Ao longe, via-se uma espécie de fila, e como formigas, os seres entravam num buraco na terra. Sem perder o foco do que estava fazendo, Aliel seguiu até lá.

A fila era de centenas de Tanunca Naras. Cabelos preto-azulados e seis dedos em cada uma das mãos e pés denunciavam ser da mesma espécie do desconhecido. Aliel já se preparava para sair de seu esconderijo quando sentiu alguém atrás de si. Mais que depressa se virou, preparada para o que tivesse que enfrentar. Não sabia se estava com um semblante muito assustador, pois o garoto parecia não conseguir falar.

- Mas o que você está fazendo aqui?
- Eu tenho medo de Tanunca Nara.
- Aqui tem centenas dele, sabia?
- Mas estou com você.

Pronto, ele tocara na ferida. Aliel ainda não estava acostumada com essas “demonstrações de afeto” por parte de Ekim. Ele, a princípio muito quieto, mal humorado e reservado, parecia agora realmente considerá-la, e isso já bastava para ela não conseguir censurá-lo, afinal, era o único terráqueo que a entendia, ou pelo menos tentava.

- Tudo bem, mas nunca, em hipótese alguma, saia de perto de mim!
- E você acha que eu quero chegar perto daquilo, né? – Ekim disse apontando para a fila de Tanunca Naras.

Aliel reprimiu um sorriso e disse para Ekim acompanhá-la. Ao chegar perto da fila, notou que os seres nem sequer olhavam para eles, como se fossem invisíveis. Tiveram que esperar toda a fila entrar no “buraco” para ver um daqueles seres se postar ao lado dele como se fosse um segurança, porteiro, ou algo do tipo.
Aliel advertiu Ekim mais uma vez para que ficasse quieto, e em hipótese alguma abrisse a boca. Com a sua melhor postura de respeito, falou com a mais elegante eloqüência que encontrou:

- Venho de terras muito distantes. Gostaria de conhecer seu rei e maravilhoso reino, para que quando voltar ao meu mundo, o Lunático, possa levar lembranças desse lindo lugar.
- Como é seu nome, senhorita?
- Aliel.
- E o do Senhor?

Ekim, fiel aos conselhos de Aliel e sem igual em obediência, nem sequer abriu a boca. Foi preciso um “discreto” cutucão de Aliel para que dissesse trêmulo:

- Ekim.
- Muito bem. Tenho certeza que o rei ficará muito contente em receber visitas e estimará vossa companhia. Só um momento.

O sujeito estranho, porém sem igual em educação, chamou outro sujeito estranho e falou para que levasse Aliel e Ekim à presença do rei. Em um instante Aliel e Ekim estavam entrando naquele buraco para encontrar o que não podiam nem sequer imaginar.