Andie – Um ano depois

Quanto tempo já havia se passado? Nas minhas contas aproximadamente um ano. Sim, um ano desde o dia em que acordei sozinha no mundo. Não que muita coisa tivesse mudado desde então, mas agora pelo menos eu tinha em quem confiar: o Snoop, a única razão da minha existência. Não conhecia ninguém e continuo sem saber o nome do meu vizinho da frente. A maioria das pessoas daqui fala comigo como se me conhecessem, mas não quisessem demonstrar isso. Até aquele português da padaria parece me conhecer, e o pior é que eu não me lembro de absolutamente nada da minha “vida passada”. Ninguém veio me visitar, e eu nunca recebi nem sequer um telefonema ou correspondência. Ás vezes imagino que para o mundo eu nem exista, já que aparentemente não preciso pagar vários impostos.

Acho que eu nem tenho família, ou talvez fosse uma pessoa horrível antes de tudo (e eu nem sei o que esse tudo pode ser) acontecer. Outro dia um garoto passava na rua e acenou para mim. Fiquei tão feliz que acenei de volta, afinal, alguém havia me notado! Mas minha felicidade durou até sua mãe lhe dar um belo cutucão e dizer algumas coisas que eu não pude entender. Eu nunca mais vi o garoto. Meu vizinho da frente diz “bom-dia” para todo mundo. Ele parece ser bem simpático, e imagino que seria uma companhia agradável, não fosse meu constante mau humor.

E tem o Snoop. A minha razão de viver, o amor da minha vida, meu amigo e fiel companheiro. Passo o dia todo com ele, e até achei esses dias que ele estava prestes a falar alguma coisa para mim. É incrível como ele parece humano. Parece que entende tudo o que eu falo e até tenta me animar ou consolar quando estou meio para baixo (constantemente, diga-se de passagem). Eu o amo com todo o meu ser e dedico minha vida a ele, já que não tenho mais absolutamente nada para fazer. Sempre acontece alguma coisa interessante durante os nossos passeios matutinos. Esses dias vi uma velhinha tentando atravessar a rua. Eu ofereci ajuda, e quando foi rejeitar me olhou. A sua expressão era indecifrável, e sem mais desculpas aceitou minha humilde ajuda. O que ela viu em mim? Eu não faço a mínima idéia, mas tenho absoluta certeza de que já me viu antes.

Mas hoje eu acordei diferente. Acordei com vontade de sair de casa (coisa raríssima), olhar para aquele português da padaria e dizer um sonoro “bom-dia!”. Também queria que meu vizinho da frente viesse molhar o jardim e me dissesse “bom-dia”. Queria que o Snoop tivesse mais animado que qualquer dia, para fazermos aquele longo passeio que ele tanto adora e depois ir ao pet-shop “dar um up” no seu visual. Também queria acenar para o garotinho que levou bronca da mãe. Queria ajudar aquela velhinha atravessar a rua quinze vezes, e depois convidá-la para tomar um chá. Quem sabe passar horas conversando com alguém, experiência absolutamente nova para mim, já que o Snoop ainda não aprendeu a falar.

Não, eu não fiz nada disso. Não fiz porque uma batida na porta mandou todos os meus planos e humores para os ares. O que alguém estaria fazendo ali? Ninguém, jamais, bateu na minha porta. Eu precisava atender, mas não sabia exatamente o que fazer. Oras bolas, era só alguém! Alguém como eu que talvez não tivesse família, ou não conhecesse o seu passado. Não, provavelmente não, mas certamente não era um alienígena. Ok. Era só atender a porta.

Muitas vezes subestimamos alguns atos. O que é atender uma porta para qualquer pessoa? Algo absolutamente normal, não? Para mim não era, e não foi. Não foi porque quem estava ali não era o português da padaria, meu simpático vizinho da frente, o garotinho risonho ou a velhinha agradecida. Era alguém completamente estranho que eu nunca nem sonhei em ver ou conhecer. A única pessoa até hoje que entrou na minha casa. A única que eu permiti apertar-me a mão. A única pessoa que eu permiti entrar dessa forma na minha vida por simplesmente sorrir para mim sem medo e me chamar de Andie. Alguém que estava agora sentado no sofá da minha sala, esperando por um copo d’água que certamente me imaginou fabricando, tal a demora.

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Não entendeu? Leia: Andie

♪ Zeca Baleiro - Quase nada